
A eleição desta quinta-feira (1º) na Câmara Municipal de Campo Grande tem uma peculiaridade que ultrapassa os limites do Legislativo: quem sair da sessão como presidente da Casa poderá estar no comando do município em uma eventual mudança no Executivo a partir de 2027.
A princípio, a votação é para escolher a Mesa Diretora que conduzirá a Câmara nos dois últimos anos da atual legislatura. A composição, porém, já está acertada e Papy (PSDB) deve ser novamente escolhido para a presidência. O detalhe que transformou o pleito em assunto de bastidor é o processo eleitoral que envolve a prefeita Adriane Lopes (PP) e a vice Camilla Nascimento (Avante), ainda pendente de julgamento no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
O novo pleito ocorre porque a eleição realizada em julho de 2025, que havia antecipado a definição da Mesa de 2027/2028, foi posteriormente anulada. A Justiça determinou que a escolha fosse refeita dentro do período previsto pelas novas regras internas da Câmara.
Assim, a sessão desta quinta-feira não deve produzir surpresa no resultado. A chapa que será submetida aos vereadores é praticamente a mesma que havia sido escolhida anteriormente, com uma mudança nas posições de vice. A votação formaliza a composição que assumirá em janeiro de 2027.
É justamente a partir de 2027 que a presidência do Legislativo pode ganhar uma dimensão diferente.
O mandato de Adriane Lopes e Camilla Nascimento é alvo de um recurso apresentado pela Procuradoria Regional Eleitoral ao TSE. O órgão busca reverter a decisão do TRE-MS que manteve as duas nos cargos e pede a cassação dos mandatos por captação ilícita de sufrágio.
A acusação está relacionada à campanha eleitoral de 2024. Segundo a Procuradoria, as provas reunidas apontariam para uma estrutura de compra de votos envolvendo lideranças comunitárias, pessoas ligadas à campanha e servidores. A defesa das gestoras contestou as acusações e sustentou, entre outros argumentos, a falta de comprovação dos ilícitos atribuídos à chapa.
O TRE-MS, por maioria, manteve a decisão favorável a Adriane e Camilla. O caso chegou ao TSE justamente porque a Procuradoria recorreu dessa decisão.
Portanto, o cenário de eventual mudança no Executivo é uma possibilidade condicionada a uma decisão judicial — não uma definição sobre o futuro da Prefeitura.
Se houver uma decisão que retire simultaneamente prefeita e vice dos cargos, a sucessão do Executivo municipal poderá colocar o presidente da Câmara no centro da transição, conforme as regras aplicáveis ao caso.
É essa possibilidade que faz a eleição da Mesa chamar atenção nos bastidores políticos. Papy, que deve permanecer à frente do Legislativo, poderá ter de lidar não apenas com as funções administrativas e políticas da Câmara, mas também com um eventual cenário de vacância no Executivo.
A situação ganhou combustível depois que o vereador Leinha (Avante) foi flagrado em uma reunião política afirmando que Adriane não terminaria o mandato. A declaração ocorreu enquanto o processo eleitoral continua sem desfecho definitivo.
Até aqui, entretanto, Adriane e Camilla continuam exercendo normalmente os cargos para os quais foram eleitas. O TSE ainda precisa analisar o recurso que questiona a decisão do TRE-MS.
A composição que deve ser oficializada nesta quinta-feira terá Papy na presidência e Carlão (PSB) na 1ª secretaria.
A principal alteração está na vice-presidência: Lívio Leite (União Brasil) ocupará a 1ª vice, enquanto Ana Portela (PL) ficará com a 2ª vice, no lugar de André Salineiro (PL).
A composição prevista para o biênio 2027/2028 é:
Presidente: Papy (PSDB)
1º vice-presidente: Lívio Leite (União Brasil)
2ª vice-presidente: Ana Portela (PL)
3º vice-presidente: Neto Santos (Republicanos)
1º secretário: Carlão (PSB)
2ª secretária: Luiza Ribeiro (PT)
3º secretário: Ronilço Guerreiro (Podemos)
A eleição anterior havia sido realizada em 10 de julho de 2025, quando Papy foi reconduzido em chapa única. Depois, a Justiça suspendeu os efeitos daquele pleito, e a Câmara firmou acordo com o Ministério Público para anular a votação e realizar uma nova escolha dentro do período permitido.
Agora, a Câmara volta a votar — mas, desta vez, a escolha do presidente carrega uma circunstância que não estava no centro do debate quando a primeira eleição ocorreu: a possibilidade de que o comando do Legislativo tenha papel direto em uma eventual sucessão da Prefeitura, caso o processo eleitoral contra a atual chapa seja acolhido pela Justiça.