
O contraste chama atenção: enquanto R$ 19,1 milhões foram pagos à Produserv pela Prefeitura de Campo Grande entre janeiro e setembro de 2026, unidades de saúde da Capital convivem com relatos de falta de materiais básicos de higiene e limpeza. Entre os itens apontados estão desinfetante e papel higiênico. Do outro lado da operação, trabalhadores terceirizados também denunciam dificuldades para receber o vale-transporte e sobrecarga provocada pela falta de mão de obra.
A empresa está no centro de uma situação que se arrasta desde o primeiro semestre. O contrato que mantinha a Produserv responsável pela limpeza e conservação da rede municipal chegou ao fim em abril, mas a prestação do serviço continuou. A Prefeitura passou a reconhecer despesas referentes aos serviços executados enquanto a contratação de uma nova empresa não é concluída. Em abril, por exemplo, o município reconheceu uma dívida de R$ 2,36 milhões com a empresa.
A nova licitação também não avançou como previsto. A Prefeitura chegou a declarar a Integral Construtora e Empreendimentos vencedora do processo, mas a contratação acabou travada por uma disputa judicial. No sistema oficial de transparência, o pregão eletrônico aparece atualmente como suspenso.
As denúncias atuais não surgem isoladamente. Um relatório do Conselho Municipal de Saúde elaborado após inspeções em unidades da Capital apontou problemas na execução dos serviços de limpeza e conservação.
Segundo o levantamento, 60 das 78 unidades vistoriadas apresentavam número de trabalhadores abaixo do previsto, com um déficit estimado em 83 profissionais. O documento também registrou falta ou insuficiência de itens como papel higiênico, papel-toalha, sabonete líquido, desinfetante, álcool e sacos de lixo.
Em determinados locais, o Conselho registrou relatos de que a limpeza teria sido realizada sem os produtos específicos necessários, chegando, em alguns casos, ao uso apenas de água diante da falta de insumos.
O relatório recomendou, entre outras providências, o encaminhamento das informações ao Ministério Público do Trabalho e uma auditoria integral sobre a execução do contrato.
Agora, as reclamações também envolvem as condições enfrentadas pelos funcionários responsáveis pela limpeza.
Segundo relatos recebidos na apuração, trabalhadores não estariam recebendo de uma só vez a quantidade de créditos de transporte necessária para cumprir o mês. A situação faria com que alguns precisassem colocar dinheiro do próprio bolso para conseguir chegar ao trabalho.
As denúncias também apontam desconto mensal de R$ 99 referente ao vale-transporte sobre salário informado de R$ 1.485,90.
Outro problema relatado é a sobrecarga das equipes. Com menos profissionais do que o previsto para determinadas unidades, trabalhadores acabam tendo de assumir uma carga maior de serviço.
O Conselho Municipal de Saúde já havia registrado anteriormente relatos relacionados às condições de trabalho dos funcionários terceirizados, além do déficit de profissionais para a execução da limpeza.
A permanência da Produserv na rede municipal ocorre mesmo depois do encerramento do contrato original.
Em julho, a Prefeitura reconheceu outro débito, de R$ 2,82 milhões, referente à limpeza das unidades de saúde realizada em maio. Na ocasião, o contrato já havia terminado, mas a empresa continuava executando os serviços enquanto a nova contratação permanecia pendente.
Em agosto, o município já havia reconhecido aproximadamente R$ 7,9 milhões em dívidas referentes aos serviços prestados pela empresa após o encerramento do contrato, segundo levantamento publicado à época.
Os dados apresentados na apuração mais recente apontam que o total pago à Produserv em 2026 chegou a R$ 19,1 milhões até setembro, sendo quase R$ 6 milhões relacionados a serviços de períodos anteriores. Os recursos são provenientes do Fundo Municipal de Saúde.
A relação entre Prefeitura e Produserv também chama atenção pelo histórico contratual.
O contrato original, firmado em 2020, previa inicialmente cerca de R$ 17,1 milhões para 12 meses. Ao longo dos anos, foram realizados diversos aditivos. Segundo levantamento baseado nos documentos contratuais, os valores acumulados chegaram a R$ 170,4 milhões em aditivos desde 2020.
O novo processo licitatório prevê a contratação de uma empresa para executar serviços contínuos de higienização, limpeza, desinfecção, conservação e gerenciamento de resíduos nas unidades municipais de saúde. O procedimento, porém, consta como suspenso no portal oficial da Prefeitura.
A Integral Construtora e Empreendimentos chegou a vencer a disputa, com proposta final de aproximadamente R$ 29,9 milhões por ano, mas a transição não foi concluída.
Questionada sobre os problemas apontados, a Prefeitura afirma que mantém fiscalização contínua dos serviços, com visitas técnicas às unidades, monitoramento da execução e apuração de eventuais inconformidades.
A administração também informou que analisa possíveis glosas e pode encaminhar situações à Controladoria do Município para verificar aspectos relacionados à execução contratual.
A Produserv foi procurada para se manifestar sobre as denúncias envolvendo falta de materiais, vale-transporte e condições de trabalho dos funcionários, mas não respondeu até a publicação.
O espaço permanece aberto para manifestação da empresa.