
Armas de fogo examinadas em seis unidades regionais da Polícia Científica de Mato Grosso do Sul passarão a ter seus padrões balísticos coletados no próprio interior, ampliando as possibilidades de identificar conexões entre crimes registrados em diferentes municípios e estados. Para viabilizar essa expansão, o Governo do Estado, por meio da Sejusp (Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública), investiu R$ 720 mil na aquisição de seis câmaras de recuperação de projéteis para a PCi-MS (Polícia Científica de Mato Grosso do Sul).
Adquiridos com recursos do Fesp (Fundo Estadual de Segurança Pública), os equipamentos foram destinados às URPIs (Unidades Regionais de Perícia e Identificação) de Amambai, Bataguassu, Ponta Porã, Três Lagoas, Coxim e Fátima do Sul. Juntas, essas unidades atendem 28 municípios, cujas demandas periciais serão contempladas pela ampliação. A iniciativa ocorre em um cenário no qual Mato Grosso do Sul já contabiliza 179 ligações balísticas confirmadas por meio da tecnologia.

Do interior ao banco nacional
Até então, a obtenção de padrões balísticos destinados ao Sinab (Sistema Nacional de Análise Balística) estava concentrada principalmente em Campo Grande. Com os novos equipamentos, os peritos das seis unidades poderão realizar essa etapa no interior, reduzindo a necessidade de encaminhar armas de fogo à Capital exclusivamente para essa finalidade.
A diretora do Instituto de Criminalística (IC), perita criminal Karina Rébulla Laitart, detalha como os novos equipamentos serão incorporados à rotina pericial das unidades regionais. “Os padrões balísticos coletados nas unidades do interior serão encaminhados a Campo Grande, onde faremos a aquisição das imagens e a inserção no Sinab. Com isso, ampliaremos a quantidade de informações disponíveis para comparação”, explica a diretora.
O material será processado pelo NBF (Núcleo de Balística Forense), responsável pela aquisição das imagens e inserção dos registros no sistema nacional. A descentralização da coleta permitirá ampliar a participação das unidades regionais na formação da base de dados, reunindo padrões de armas examinadas em diferentes regiões de Mato Grosso do Sul.
Para a diretora, os resultados poderão ultrapassar os limites territoriais de cada unidade. “A análise desses padrões poderá revelar conexões entre ocorrências de diferentes municípios e fornecer às equipes de investigação informações que, até então, não estavam disponíveis”, destaca.
Ligações balísticas cresceram 66% em cerca de um ano
Mato Grosso do Sul integra o Sinab desde julho de 2023. Em novembro de 2025, o Estado contabilizava 108 ligações balísticas confirmadas, conhecidas como hits. Até 6 de novembro de 2026, esse número chegou a 179, crescimento de aproximadamente 66%, com 71 novas correspondências identificadas.
Um dos casos registrados em Campo Grande envolveu uma arma apreendida por porte ilegal, inicialmente sem vínculo conhecido com crimes violentos. A análise balística permitiu relacioná-la a quatro ocorrências anteriores. As correspondências foram confirmadas pelo confronto de estojos de munição, e os laudos foram encaminhados às delegacias responsáveis.
A tecnologia também já permitiu estabelecer uma ligação interestadual. Uma arma apreendida durante uma ocorrência de homicídio no interior de Mato Grosso do Sul, em 2024, foi relacionada a vestígios de um crime anterior em Mato Grosso. A correspondência apontada pelo sistema foi posteriormente confirmada por confronto físico no laboratório da Politec-MT (Perícia Oficial e Identificação Técnica de Mato Grosso).
Esses resultados, porém, não significam necessariamente que os crimes tenham sido solucionados. As correspondências permitem estabelecer relações técnicas entre armas de fogo e vestígios balísticos, enquanto a identificação dos responsáveis pelos disparos depende de outros elementos reunidos durante a investigação.

Como funciona a balística forense
Assim como o DNA humano permite comparar vestígios biológicos, as marcas produzidas por armas de fogo em projéteis e estojos de munição podem revelar conexões entre diferentes ocorrências. Na balística forense, essas marcas são examinadas por peritos criminais para verificar se os vestígios podem estar relacionados a uma mesma arma.
Durante o exame de uma arma de fogo, o perito criminal realiza disparos controlados para obter projéteis e estojos de referência, utilizados como padrões balísticos. As câmaras de recuperação permitem recolher os projéteis preservando as marcas produzidas pelo armamento, que podem ser comparadas com aquelas presentes em vestígios recolhidos em locais de crime.
Na etapa seguinte, equipamentos específicos registram imagens das marcas presentes nos projéteis e estojos de munição. O Sinab compara esses registros com os armazenados no BNPB (Banco Nacional de Perfis Balísticos) e aponta possíveis correspondências, que precisam ser analisadas e confirmadas por peritos criminais.
Com a expansão para o interior, padrões obtidos de armas examinadas nas áreas atendidas pelas seis unidades regionais poderão integrar a base nacional e ser comparados com vestígios registrados em outras partes do país. As informações resultantes dessas análises poderão subsidiar investigações que, sem o cruzamento dos dados balísticos, poderiam não apresentar uma relação conhecida.
Maria Ester Jardim Rossoni, Comunicação PCi-MS
Fotos: Divulgação/PCi-MS