
Mato Grosso do Sul vive um momento de definição histórica. Ao contrário da imensa maioria das unidades federativas brasileiras, que em 2024 e 2025 optaram por elevar a alíquota modal do ICMS — em grande parte para garantir uma participação maior na futura repartição do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), no contexto da Reforma Tributária —, o governador Eduardo Riedel escolheu o caminho da resistência fiscal. Ao manter a alíquota em 17%, o estado consolidou-se como detentor da menor carga tributária do país, uma decisão que carrega tanto o peso da coragem política quanto os riscos inerentes à gestão técnica.
O custo da coerência: arrecadação versus investimento
A consequência imediata dessa escolha não tardou a aparecer: uma pressão severa sobre o fluxo de caixa estadual. Enquanto outros estados “inflaram” seus orçamentos por meio do aumento imediato de impostos, Mato Grosso do Sul enfrentou uma queda real na arrecadação do ICMS, agravada ainda pela redução na importação de gás natural.
Para manter a máquina pública em funcionamento e assegurar a continuidade dos serviços essenciais, o governo Riedel foi obrigado a adotar medidas duras, porém estruturantes:
Mato Grosso do Sul versus Brasil: o diferencial competitivo
A comparação com estados vizinhos e outras unidades da federação é expressiva. Maranhão (22%), Piauí (21%) e Bahia (20,5%), entre outros, optaram pelo alívio imediato do caixa público. Riedel, por outro lado, escolheu preservar o fôlego do setor produtivo.
“A nossa aposta é preservar a capacidade de compra das pessoas e a competitividade das nossas empresas”, defende o governador.
A lógica é clara: ao não elevar impostos, Mato Grosso do Sul se posiciona como um ambiente seguro e atrativo para novos investimentos privados. Isso ajuda a explicar o aparente paradoxo de o estado registrar um dos maiores crescimentos do PIB do país mesmo em um contexto de restrição fiscal.
Riscos e reeleição: o juízo das urnas
O principal risco a médio prazo é o descompasso fiscal. Caso o crescimento econômico — traduzido na ampliação da base tributária — não compense a manutenção da alíquota reduzida, o estado pode chegar a 2026 com uma dependência excessiva de crédito. No campo político, a oposição já explora os empréstimos como narrativa de “endividamento”.
Ainda assim, Riedel constrói um trunfo relevante para uma eventual reeleição: a imagem de gestor que protegeu o bolso do cidadão e do empresário em um momento em que o país inteiro encarecia. Se as obras financiadas pelos empréstimos forem entregues dentro do prazo e a inflação local for atenuada pelo ICMS mais baixo, o governador chegará ao pleito como símbolo de eficiência administrativa frente à sanha arrecadatória.
Análise de mérito: a coragem como ativo político
Dizer “não” à receita fácil exige coragem. A decisão de Riedel representa um voto de confiança no livre mercado e na eficiência da gestão pública. Em vez de penalizar quem produz, o governo optou por cortar na própria estrutura estatal, reduzindo despesas internas para manter o estado competitivo. Trata-se de uma postura de estadista, que substitui o populismo fiscal por uma visão de sustentabilidade econômica de longo prazo. Riedel não governa apenas o presente — ele trabalha para blindar o futuro de Mato Grosso do Sul.