
A COP15 em Campo Grande escancarou mais do que o debate ambiental global — revelou também o uso político estratégico do evento. Enquanto o discurso oficial girava em torno da proteção da fauna e da biodiversidade, o governador Eduardo Riedel aproveitou a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para pressionar diretamente por obras e investimentos considerados vitais para Mato Grosso do Sul.
Nos bastidores da conferência, Riedel elevou o tom e levou à mesa temas que vão muito além da pauta ambiental — como a Rota Bioceânica, financiamento internacional e concessões rodoviárias. A estratégia foi clara: usar o palco global da COP15 para destravar gargalos históricos de infraestrutura.
Durante a abertura oficial, o governador tentou consolidar a imagem de um Estado que cresce aliado à sustentabilidade, defendendo que Mato Grosso do Sul está no caminho da “prosperidade com preservação”.
Mas, longe dos discursos, a conversa com Lula teve outro foco.
Riedel cobrou garantias para a continuidade da Rota Bioceânica, especialmente no acesso à ponte sobre o Rio Paraguai, em Porto Murtinho. A preocupação é direta: o risco de a obra ficar pronta sem ligação viária adequada do lado brasileiro — um cenário que transformaria um projeto estratégico em símbolo de desperdício.
Outro ponto sensível levado ao presidente foi a liberação de um empréstimo internacional de US$ 200 milhões para obras no Vale do Ivinhema. O recurso ainda depende de trâmites na Casa Civil e aprovação no Senado — um entrave burocrático que evidencia a dependência do Estado em relação ao governo federal.
Segundo Riedel, Lula se comprometeu a verificar a situação do processo, que aguarda apenas um avanço administrativo para seguir ao Banco Mundial.
Além disso, o governador reforçou a necessidade de investimentos em rodovias e destacou a concessão da chamada “Rota da Celulose”, considerada peça-chave para sustentar o crescimento industrial do Estado.
Apesar do foco oficial da COP15 ser a preservação das espécies migratórias, o movimento do governo estadual deixa claro que a prioridade vai além do meio ambiente.
Riedel tenta vender Mato Grosso do Sul como modelo de economia verde, destacando recuperação de áreas degradadas e investimentos em energia limpa. Ao mesmo tempo, atua nos bastidores para garantir logística, crédito e obras estruturantes que sustentem o crescimento econômico.
A equação é delicada: equilibrar preservação ambiental com expansão agroindustrial — um desafio que ainda divide especialistas e pressiona governos.
Ao sediar a COP15, o Estado ganha visibilidade global e entra no radar de investidores e organismos internacionais. Mas o protagonismo vem acompanhado de um peso político inevitável: a cobrança por resultados reais.
Enquanto líderes discutem a crise das espécies migratórias — com quase metade das populações em declínio —, Mato Grosso do Sul se apresenta como solução. O problema é que essa narrativa agora será testada na prática.
A COP15 colocou Mato Grosso do Sul no centro do debate mundial. Mas também revelou uma verdade incômoda: por trás do discurso ambiental, a engrenagem política continua girando movida por interesses econômicos, obras e articulações de poder.
Riedel saiu do evento com uma promessa de visibilidade global — e com uma cobrança direta sobre Brasília.
Agora, resta saber se o Estado conseguirá transformar discurso em entrega. Ou se a COP15 ficará marcada apenas como um grande palco político travestido de agenda ambiental.