
O fim da janela partidária em Mato Grosso do Sul escancarou um cenário de intensa disputa política, alianças estratégicas e incertezas que devem marcar o caminho até as eleições de 2026. Longe de trazer definições, o período revelou um tabuleiro em ebulição, com pré-candidatos pressionados, partidos fortalecidos e outros praticamente esvaziados.
No centro desse furacão está o Partido Liberal (PL), onde nomes como Marcos Pollon, Capitão Contar e Gianni Nogueira decidiram permanecer na sigla, mesmo diante de dúvidas sobre espaço e apoio. A permanência, no entanto, colocou os três em uma posição delicada: agora dependem diretamente das decisões das cúpulas estadual e nacional.
A promessa de que a escolha será feita com base em pesquisas, defendida por lideranças como Valdemar da Costa Neto, Reinaldo Azambuja e reforçada por Flávio Bolsonaro, não elimina a tensão interna. Pelo contrário, acirra a disputa, já que levantamentos recentes indicam vantagem para Azambuja e Contar, deixando Pollon e Gianni em desvantagem no jogo político.
Mesmo assim, os dois últimos apostam em um fator externo: o peso político de Jair Bolsonaro. Pollon, inclusive, ganhou fôlego após uma carta divulgada por Michelle Bolsonaro, na qual o ex-presidente o elogia e sinaliza preferência para a vaga ao Senado. Ainda assim, o apoio não garante candidatura — tudo dependerá da disposição da cúpula partidária em acatar ou não essa indicação.
Nos bastidores, a disputa ganhou contornos ainda mais polêmicos após o vazamento de anotações atribuídas a Flávio Bolsonaro, que mencionavam valores milionários supostamente pedidos para desistência de candidaturas — episódio negado posteriormente, mas que elevou o nível de tensão interna.
Enquanto isso, Gianni Nogueira chegou a ensaiar uma saída para o Partido Novo, onde teria espaço garantido, mas recuou diante de cálculos políticos e financeiros, especialmente ligados à viabilidade de campanha dentro do atual cenário.
Se no PL a disputa é interna, no cenário geral a janela partidária provocou uma verdadeira reconfiguração de forças em Mato Grosso do Sul.
Na Assembleia Legislativa, o PL saiu como grande vencedor, saltando de três para sete deputados estaduais e assumindo protagonismo político no Estado.
O Republicanos também avançou de forma significativa, passando de uma cadeira para quatro, consolidando-se como peça-chave dentro da base governista.
Já a federação União Progressista (PP + União Brasil) ampliou presença e se posiciona como uma das principais forças para 2026, especialmente na Câmara Federal.
Por outro lado, partidos tradicionais sofreram duros golpes. O PSDB, que já foi protagonista, praticamente desmoronou: perdeu parlamentares importantes e ficou sem representação na Câmara dos Deputados por Mato Grosso do Sul.
O MDB seguiu o mesmo caminho de enfraquecimento, reduzindo drasticamente sua presença na Assembleia Legislativa.
As mudanças não ficaram restritas ao cenário estadual. Na bancada federal, três deputados trocaram de partido, acelerando o processo de redesenho político e evidenciando a fragilidade de antigas estruturas partidárias.
Além disso, a movimentação de lideranças nacionais também influenciou diretamente o cenário local, como no caso da filiação da senadora Soraya Thronicke ao PSB, resultado de articulações nos bastidores com apoio de setores da esquerda.
Outro foco de instabilidade envolve o ex-prefeito Marquinhos Trad. Após deixar o PDT e se filiar ao PV, ele virou alvo de uma disputa jurídica interna que pode resultar até na perda de mandato.
A polêmica gira em torno de uma carta de anuência considerada inválida por dirigentes do partido, o que abriu caminho para ações judiciais e aprofundou o racha interno. O caso expõe não apenas uma disputa individual, mas a fragilidade das siglas diante do período eleitoral.
Com o fim da janela partidária, o que se vê em Mato Grosso do Sul é um cenário longe de qualquer estabilidade. Ao invés de definições, o período deixou uma série de disputas abertas, especialmente dentro dos próprios partidos.
A corrida pelo Senado, em especial, se transformou em um campo de batalha onde pesquisas, interesses partidários e influências externas — como a de Bolsonaro — devem colidir até as convenções.
Enquanto isso, partidos como PL, Republicanos e União Progressista saem fortalecidos, ocupando espaços estratégicos e se preparando para protagonizar a disputa eleitoral. Já legendas tradicionais enfrentam o desafio de sobreviver politicamente em um ambiente cada vez mais competitivo.
No fim das contas, a janela partidária não encerrou o jogo — apenas deu início a uma fase ainda mais intensa, onde decisões internas, alianças e traições podem definir o futuro político do Estado.