
A corrida eleitoral em Mato Grosso do Sul entrou definitivamente em um novo patamar — mais fragmentada, mais competitiva e muito mais imprevisível. O que antes parecia um cenário controlado por grandes chapas agora se transforma em um verdadeiro campo minado político, onde alianças, interesses e estratégias se chocam dentro do próprio grupo governista.
No centro dessa disputa está a federação União Progressista (União Brasil + PP), conhecida como “chapão da morte” pela quantidade de pré-candidatos competitivos. A expectativa inicial era de domínio nas urnas, mas o avanço de novos partidos e as mudanças na legislação eleitoral passaram a ameaçar esse favoritismo.
A principal virada vem da mudança na regra eleitoral, que agora facilita o acesso às vagas mesmo sem atingir 80% do quociente eleitoral. Na prática, partidos podem conquistar cadeiras com cerca de 100 mil votos, ampliando o número de concorrentes reais.
Na última eleição, o quociente foi de 175.809 votos e apenas três vagas foram preenchidas diretamente — por PSDB, PL e PT. As demais cadeiras vieram nas sobras, favorecendo partidos com melhor distribuição de votos.
Agora, com a nova regra, o cenário muda completamente: mais partidos entram no jogo com chances reais, reduzindo o espaço dos favoritos e tornando a disputa muito mais pulverizada.
Mesmo com nomes de peso como Dagoberto Nogueira, Rose Modesto, Luiz Ovando e Geraldo Resende, o União Progressista enfrenta um problema interno: o excesso de candidatos competitivos.
A chamada “chapa da morte” pode acabar sendo vítima do próprio tamanho. Para garantir três cadeiras, será necessário repetir um desempenho considerado raro — média superior a 35 mil votos por candidato, algo que poucos conseguiram na eleição passada.
A quarta vaga, que garantiria espaço para todos os principais nomes, é considerada praticamente inviável diante do crescimento dos adversários.
O avanço de outros partidos dentro da própria base governista é o principal fator de risco.
O Republicanos surge como uma das grandes forças emergentes, com potencial para conquistar até duas cadeiras, impulsionado por novas filiações e estrutura fortalecida.
Já o PL, comandado pelo ex-governador Reinaldo Azambuja, também projeta eleger até três deputados federais, apostando em nomes como Rodolfo Nogueira e Mara Caseiro.
O PT, mesmo com mudanças internas, segue competitivo e busca manter espaço na Câmara, especialmente com novas articulações dentro da federação.
A recente janela partidária deixou claro que a disputa não é apenas entre partidos, mas dentro do próprio grupo governista.
Em apenas 30 dias, 13 dos 24 deputados estaduais trocaram de partido, redesenhando completamente o equilíbrio de forças. O PL saiu como maior bancada, enquanto o Republicanos cresceu de forma acelerada.
Ao mesmo tempo, o PSDB encolheu drasticamente e tenta sobreviver politicamente após perder protagonismo — chegando a ficar sem representação na Câmara Federal.
Mesmo fragilizado, o PSDB ainda pode influenciar diretamente o resultado da eleição. O partido se reorganizou com nova direção estadual, comandada por Pedro Caravina, e tenta montar uma chapa competitiva.
Com a nova regra eleitoral, a legenda pode conquistar vaga mesmo sem atingir altos índices de votação, tornando-se peça-chave na disputa pelas sobras.
O cenário estadual também é impactado pela disputa nacional. A presença do pré-candidato à presidência Flávio Bolsonaro em eventos como a Expogrande reforça o peso político do agronegócio na eleição.
A aproximação com lideranças locais, como o governador Eduardo Riedel e Reinaldo Azambuja, fortalece o alinhamento entre o setor produtivo e o campo político da direita no Estado.
Enquanto isso, a senadora Tereza Cristina mantém protagonismo ao descartar uma candidatura à vice-presidência, reforçando seu foco no agronegócio e na política regional.
O novo desenho político de Mato Grosso do Sul revela um cenário sem donos.
A combinação de nova regra eleitoral, crescimento de partidos, chapas inchadas e disputas internas cria uma eleição onde ninguém tem vitória garantida — nem mesmo os favoritos.
O que antes era uma disputa previsível agora se transforma em uma batalha voto a voto, onde estratégia, articulação e divisão interna podem definir quem sobrevive politicamente.
E, neste novo cenário, uma certeza já ronda os bastidores: o maior adversário pode não estar fora — mas dentro do próprio grupo.