
A possível intervenção no Consórcio Guaicurus entrou em sua fase decisiva e pode representar um dos momentos mais importantes da história recente do transporte coletivo de Campo Grande. Após meses de apuração, a comissão especial criada pela Prefeitura concluiu que existem indícios consistentes de descumprimento do contrato de concessão e recomendou formalmente a intervenção na empresa responsável pelo serviço. Agora, a decisão está nas mãos da prefeita Adriane Lopes.
A recomendação ocorre após anos de reclamações da população sobre atrasos constantes, superlotação, falta de conforto, veículos antigos e problemas que transformaram o transporte público em uma das maiores dores de cabeça dos campo-grandenses. Para milhares de trabalhadores, estudantes e idosos, utilizar ônibus na Capital passou a ser sinônimo de longas esperas, viagens lotadas e insegurança diária.
O relatório elaborado pela comissão é contundente. Entre 2021 e 2025, o Consórcio Guaicurus acumulou 21.910 autuações. Destas, 12.279 ocorreram por descumprimento de horários e outras 3.444 por omissão de viagens, evidenciando falhas recorrentes na prestação do serviço.
A situação da frota também aparece como um dos principais motivos para a recomendação da medida. Os técnicos apontaram que a idade média dos ônibus chegou a 7,6 anos, acima do limite contratual de cinco anos, enquanto dezenas de veículos ultrapassaram dez anos de uso. Auditorias e inspeções identificaram ônibus com elevadores quebrados, infiltrações, falhas mecânicas, pneus em condições inadequadas e problemas de acessibilidade.
Outro dado alarmante diz respeito à segurança. O índice de reprovação nas inspeções veiculares saltou de 5,4% em 2020 para 18,6% em 2025. No período analisado, 299 ônibus foram reprovados por irregularidades técnicas, demonstrando o avanço do sucateamento da frota.
A CPI do Transporte, realizada pela Câmara Municipal, já havia alertado para a gravidade da situação ao recomendar a substituição imediata de centenas de ônibus e a intervenção no consórcio. O relatório também apontou falhas de manutenção, superlotação, problemas de acessibilidade e descumprimentos contratuais que afetam diretamente a qualidade do serviço oferecido à população.
Caso Adriane Lopes decida seguir a recomendação da comissão, um interventor será nomeado para assumir a gestão administrativa do contrato, afastando a atual direção da concessionária. A medida terá caráter temporário e investigatório, permitindo uma auditoria completa das condições financeiras, operacionais e técnicas do sistema. Os serviços essenciais deverão continuar funcionando normalmente, sem prejuízo aos trabalhadores e usuários.
Para muitos usuários, a possível intervenção representa a esperança de uma mudança concreta após mais de uma década de reclamações. O relatório deixa claro que o problema não se resume a reajustes tarifários ou novos subsídios. A conclusão dos técnicos é de que a deterioração do sistema alcançou um nível que exige medidas mais profundas para garantir um transporte digno, seguro e eficiente à população de Campo Grande.