
Existe um princípio básico da administração pública: quanto maior o sacrifício exigido da população, maior deve ser o exemplo de austeridade vindo de quem governa.
É justamente esse princípio que vem sendo colocado à prova no terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Enquanto milhões de brasileiros convivem com inflação de alimentos, elevada carga tributária, juros altos e perda do poder de compra, os gastos da Presidência da República continuam chamando atenção. Levantamentos baseados em dados oficiais apontam que a Presidência já desembolsou mais de R$ 55 milhões em cartões corporativos desde o início do atual mandato, e, mantido o ritmo de despesas, este poderá se tornar o mandato presidencial com o maior gasto da série histórica nesse item.
É importante registrar que o cartão corporativo é um instrumento legal, utilizado para despesas institucionais, logísticas e de segurança. O Tribunal de Contas da União (TCU) não apontou irregularidades na utilização do mecanismo. O debate, porém, vai além da legalidade: diz respeito às prioridades e ao grau de transparência esperado da administração pública.
Ao longo do mandato, viagens internacionais, hospedagens em hotéis de alto padrão, reformas em imóveis oficiais, renovação de mobiliário e grandes comitivas alimentaram críticas da oposição e questionamentos da sociedade sobre a compatibilidade dessas despesas com o discurso de responsabilidade fiscal.
O contraste torna-se ainda mais evidente quando o próprio governo defende aumento de arrecadação para equilibrar as contas públicas e sustentar programas governamentais. Para o contribuinte, a percepção é simples: paga-se mais, enquanto o Estado parece disposto a gastar cada vez mais.
Como se isso não bastasse, outro alerta veio do próprio Tribunal de Contas da União.
Auditoria do TCU concluiu que o déficit das estatais não dependentes passou a pressionar diretamente o orçamento da União. Segundo o parecer, aproximadamente 91% dos recursos contingenciados pelo governo em 2025 decorreram da necessidade de absorver déficits dessas empresas, reduzindo espaço para políticas públicas e obrigando ministérios a rever planejamentos.
O Tribunal ainda apontou uma deterioração da capacidade de autofinanciamento dessas empresas, que passaram de resultados positivos em anos anteriores para déficits sucessivos, aumentando a pressão sobre as contas públicas.
Esse é o ponto que mais preocupa.
Quando empresas públicas deixam de gerar recursos e passam a consumir dinheiro do Tesouro, quem paga a diferença é a sociedade, seja por meio de maior necessidade de arrecadação, seja pela redução de espaço para investimentos em áreas essenciais.
É verdade que o governo sustenta que muitos desses gastos decorrem de compromissos oficiais, segurança institucional e recomposição patrimonial. Também argumenta que investimentos nas estatais fazem parte de uma estratégia de fortalecimento dessas empresas. Essas justificativas merecem ser consideradas no debate público.
Mas também é legítimo que a população cobre moderação.
Em qualquer democracia madura, não basta que o gasto seja legal. É preciso que ele seja necessário, proporcional e compatível com a realidade econômica do país.
O Brasil enfrenta desafios fiscais relevantes, crescimento da dívida pública e necessidade permanente de melhorar serviços como saúde, educação, segurança e infraestrutura. Nesse contexto, toda despesa do alto escalão naturalmente será comparada ao esforço exigido do cidadão comum.
Mais do que cumprir a lei, governantes precisam transmitir confiança. E confiança também se constrói pelo exemplo. Quando a população é chamada a apertar o cinto, espera-se que o Estado faça o mesmo. Essa talvez seja a principal cobrança que emerge dos números divulgados recentemente: menos debate sobre o direito de gastar e mais discussão sobre a responsabilidade de gastar bem.,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,000