Quarta, 09 de Setembro de 2026

Santa Casa cobra R$ 56 milhões na Justiça em meio à pior crise da história do hospital

Valor é relacionado a repasses que, segundo a instituição, não foram realizados pela Prefeitura durante a pandemia; cobrança ocorre enquanto unidade enfrenta falta de insumos, demissões de especialistas e fechamento da cirurgia cardíaca pediátrica

09/09/2026 às 14h00
Por: Tatiana Lemes
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Foto: Divulgação/Santa Casa
Foto: Divulgação/Santa Casa

A crise financeira e assistencial da Santa Casa de Campo Grande ganhou um novo capítulo na Justiça. O hospital ingressou com pedido de cumprimento de sentença para cobrar R$ 56 milhões da Prefeitura de Campo Grande, referentes a repasses que, segundo a instituição, deixaram de ser realizados durante a pandemia de covid-19. O pedido foi protocolado em 3 de setembro, após o processo transitar em julgado, e a Santa Casa solicita que o pagamento seja feito por meio de precatório.

A cobrança acontece justamente quando o maior hospital de Mato Grosso do Sul atravessa uma das fases mais delicadas de sua história. Nas últimas semanas, a instituição sofreu uma demissão em massa de médicos especialistas, cenário que levou ao fechamento da ala de cirurgia cardíaca pediátrica, serviço que era referência no Estado.

Valor terá de entrar no regime de precatórios

A Santa Casa já havia buscado na Justiça o recebimento direto dos valores. No entanto, o Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS) determinou que eventual pagamento siga o regime constitucional de precatórios, impedindo a liberação imediata do montante.

O novo pedido apresentado pelo hospital ocorre após o encerramento definitivo da disputa judicial, sem possibilidade de recurso, segundo as informações divulgadas sobre o processo.

A situação evidencia a dimensão da disputa financeira entre a instituição e o poder público, em um momento em que a Santa Casa depende de medidas emergenciais para manter serviços essenciais do SUS.

Hospital recebe novo socorro de R$ 4 milhões

Enquanto cobra os R$ 56 milhões na Justiça, a Santa Casa também busca recursos imediatos para evitar uma paralisação ainda maior.

Na terça-feira (8), o secretário municipal de Saúde, Marcelo Vilela, anunciou um aporte emergencial de R$ 4 milhões, em conjunto com o Governo do Estado. O dinheiro deverá ser transferido ao hospital em até 15 dias e terá como principal finalidade a compra de insumos.

Segundo o secretário, os repasses de responsabilidade da Prefeitura estão em dia. A administração municipal sustenta, portanto, que o novo recurso tem caráter emergencial e não representa reconhecimento de uma dívida corrente com a instituição.

A Prefeitura também informou que ainda não havia sido intimada sobre o pedido judicial dos R$ 56 milhões nem havia decisão judicial sobre a solicitação apresentada pela Santa Casa.

Déficit mensal chega a R$ 13 milhões, segundo hospital

A cobrança milionária não é a única batalha judicial envolvendo as finanças da Santa Casa. Em outro processo, a instituição afirma enfrentar déficit mensal de aproximadamente R$ 13 milhões.

O caso deverá passar por uma perícia judicial para analisar as contas do hospital e os custos efetivos dos serviços prestados. A Prefeitura questiona o cumprimento de metas de atendimento e defende que os números sejam analisados antes de uma eventual recomposição dos repasses.

A discussão sobre as contas ganhou ainda mais peso porque a instituição já recebeu sucessivos aportes emergenciais. Em janeiro de 2026, por exemplo, foram formalizados aditivos que somaram mais de R$ 57 milhões em recursos extras, envolvendo verbas municipais, estaduais e federais.

Força-tarefa tenta impedir colapso no atendimento

Diante do agravamento da crise, Prefeitura, Governo do Estado e Santa Casa criaram uma força-tarefa para acompanhar diariamente a situação. O objetivo é avaliar leitos, serviços, disponibilidade de recursos e as necessidades mais urgentes.

A Prefeitura também anunciou que poderá mobilizar outros hospitais contratualizados pelo SUS para ampliar excepcionalmente a oferta de vagas enquanto a Santa Casa tenta recompor as equipes médicas.

A medida ocorre após o hospital voltar a suspender cirurgias eletivas e atendimentos ambulatoriais, priorizando casos de urgência e emergência por dificuldades relacionadas à disponibilidade de insumos e à composição das equipes.

O Ministério Público de Mato Grosso do Sul também acompanha de perto a crise e afirma ter intensificado as medidas para garantir a continuidade dos serviços. O órgão cita riscos relacionados ao abastecimento de medicamentos, gases medicinais, insumos e serviços laboratoriais.

Crise expõe dependência de novos aportes

A nova cobrança de R$ 56 milhões coloca novamente no centro do debate a relação financeira entre a Santa Casa e o poder público. Ao mesmo tempo em que a instituição busca na Justiça valores referentes ao período da pandemia, Prefeitura e Estado continuam sendo chamados a apresentar soluções emergenciais para impedir que a crise financeira se transforme em uma crise ainda maior de assistência à população.

O cenário é marcado por dívidas discutidas judicialmente, déficit mensal milionário, necessidade de novos aportes, falta de insumos e perda de profissionais especializados — uma combinação que aumenta a pressão sobre o sistema público de saúde de Campo Grande.

A cobrança dos R$ 56 milhões, portanto, não representa apenas mais uma disputa financeira: ocorre em meio a uma crise que já começa a atingir diretamente a capacidade de atendimento de um dos principais hospitais de referência do Estado.

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