
A crise financeira e assistencial da Santa Casa de Campo Grande ganhou um novo capítulo na Justiça. O hospital ingressou com pedido de cumprimento de sentença para cobrar R$ 56 milhões da Prefeitura de Campo Grande, referentes a repasses que, segundo a instituição, deixaram de ser realizados durante a pandemia de covid-19. O pedido foi protocolado em 3 de setembro, após o processo transitar em julgado, e a Santa Casa solicita que o pagamento seja feito por meio de precatório.
A cobrança acontece justamente quando o maior hospital de Mato Grosso do Sul atravessa uma das fases mais delicadas de sua história. Nas últimas semanas, a instituição sofreu uma demissão em massa de médicos especialistas, cenário que levou ao fechamento da ala de cirurgia cardíaca pediátrica, serviço que era referência no Estado.
A Santa Casa já havia buscado na Justiça o recebimento direto dos valores. No entanto, o Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS) determinou que eventual pagamento siga o regime constitucional de precatórios, impedindo a liberação imediata do montante.
O novo pedido apresentado pelo hospital ocorre após o encerramento definitivo da disputa judicial, sem possibilidade de recurso, segundo as informações divulgadas sobre o processo.
A situação evidencia a dimensão da disputa financeira entre a instituição e o poder público, em um momento em que a Santa Casa depende de medidas emergenciais para manter serviços essenciais do SUS.
Enquanto cobra os R$ 56 milhões na Justiça, a Santa Casa também busca recursos imediatos para evitar uma paralisação ainda maior.
Na terça-feira (8), o secretário municipal de Saúde, Marcelo Vilela, anunciou um aporte emergencial de R$ 4 milhões, em conjunto com o Governo do Estado. O dinheiro deverá ser transferido ao hospital em até 15 dias e terá como principal finalidade a compra de insumos.
Segundo o secretário, os repasses de responsabilidade da Prefeitura estão em dia. A administração municipal sustenta, portanto, que o novo recurso tem caráter emergencial e não representa reconhecimento de uma dívida corrente com a instituição.
A Prefeitura também informou que ainda não havia sido intimada sobre o pedido judicial dos R$ 56 milhões nem havia decisão judicial sobre a solicitação apresentada pela Santa Casa.
A cobrança milionária não é a única batalha judicial envolvendo as finanças da Santa Casa. Em outro processo, a instituição afirma enfrentar déficit mensal de aproximadamente R$ 13 milhões.
O caso deverá passar por uma perícia judicial para analisar as contas do hospital e os custos efetivos dos serviços prestados. A Prefeitura questiona o cumprimento de metas de atendimento e defende que os números sejam analisados antes de uma eventual recomposição dos repasses.
A discussão sobre as contas ganhou ainda mais peso porque a instituição já recebeu sucessivos aportes emergenciais. Em janeiro de 2026, por exemplo, foram formalizados aditivos que somaram mais de R$ 57 milhões em recursos extras, envolvendo verbas municipais, estaduais e federais.
Diante do agravamento da crise, Prefeitura, Governo do Estado e Santa Casa criaram uma força-tarefa para acompanhar diariamente a situação. O objetivo é avaliar leitos, serviços, disponibilidade de recursos e as necessidades mais urgentes.
A Prefeitura também anunciou que poderá mobilizar outros hospitais contratualizados pelo SUS para ampliar excepcionalmente a oferta de vagas enquanto a Santa Casa tenta recompor as equipes médicas.
A medida ocorre após o hospital voltar a suspender cirurgias eletivas e atendimentos ambulatoriais, priorizando casos de urgência e emergência por dificuldades relacionadas à disponibilidade de insumos e à composição das equipes.
O Ministério Público de Mato Grosso do Sul também acompanha de perto a crise e afirma ter intensificado as medidas para garantir a continuidade dos serviços. O órgão cita riscos relacionados ao abastecimento de medicamentos, gases medicinais, insumos e serviços laboratoriais.
A nova cobrança de R$ 56 milhões coloca novamente no centro do debate a relação financeira entre a Santa Casa e o poder público. Ao mesmo tempo em que a instituição busca na Justiça valores referentes ao período da pandemia, Prefeitura e Estado continuam sendo chamados a apresentar soluções emergenciais para impedir que a crise financeira se transforme em uma crise ainda maior de assistência à população.
O cenário é marcado por dívidas discutidas judicialmente, déficit mensal milionário, necessidade de novos aportes, falta de insumos e perda de profissionais especializados — uma combinação que aumenta a pressão sobre o sistema público de saúde de Campo Grande.
A cobrança dos R$ 56 milhões, portanto, não representa apenas mais uma disputa financeira: ocorre em meio a uma crise que já começa a atingir diretamente a capacidade de atendimento de um dos principais hospitais de referência do Estado.