
A Polícia Federal escancarou um dos maiores escândalos já registrados no Judiciário de Mato Grosso do Sul. Em relatório conclusivo da Operação Última Rátio, a corporação solicitou ao Ministério Público Federal a denúncia de sete desembargadores, um juiz e um conselheiro do Tribunal de Contas, acusados de integrar um esquema de venda de sentenças, corrupção passiva, lavagem de dinheiro e organização criminosa.
O documento, encaminhado ao MPF e ao ministro Francisco Falcão, aponta a existência de uma engrenagem sofisticada dentro da própria estrutura da Justiça, onde decisões judiciais teriam sido manipuladas em troca de vantagens financeiras, especialmente em disputas envolvendo propriedades rurais milionárias.
Entre os alvos estão os desembargadores Divoncir Schreiner Maran, Júlio Roberto Siqueira Cardoso e Sideni Soncini Pimentel (aposentados), além de Sérgio Fernandes Martins (ainda na ativa), Alexandre Bastos e Marcos José de Brito Rodrigues (afastados). Também figuram na lista o juiz Paulo Afonso de Oliveira e o conselheiro do Tribunal de Contas, Osmar Jeronymo.
A PF sustenta que há indícios consistentes de que decisões judiciais foram negociadas com a participação direta de magistrados e intermediários, incluindo advogados que atuariam como operadores do esquema.
As investigações revelam que disputas por terras de alto valor se tornaram o principal terreno para a atuação do grupo. No caso da Fazenda Paulicéia, a polícia aponta que o conselheiro Osmar Jeronymo e seus sobrinhos teriam atuado em um esquema que inclui corrupção, falsificação de escritura pública, organização criminosa e extorsão para tomar posse do imóvel.
Segundo a PF, decisões judiciais nesse processo teriam sido vendidas com intermediação do advogado Félix Jayme Nunes da Cunha, envolvendo desembargadores como Alexandre Bastos, Vladimir Abreu da Silva, Júlio Roberto Siqueira e Sideni Soncini Pimentel.
Além disso, a investigação aponta a falsificação de documentos para legitimar a posse de propriedades, com participação de outros envolvidos, ampliando o alcance do esquema criminoso.
Outro ponto crítico envolve a Fazenda Santo Antônio, onde há suspeita de pagamento de R$ 1 milhão à advogada Renata Gonçalves Pimentel, filha de desembargador, como contrapartida por decisões judiciais favoráveis.
Já no caso da Fazenda Vai Quem Quer, a PF identificou indícios de venda de sentença envolvendo desembargadores de alta hierarquia. Situação semelhante aparece nas fazendas Montanha e San Diego, reforçando o padrão de atuação repetida dentro do Judiciário.
Há ainda um episódio envolvendo promissórias falsas aplicadas contra um engenheiro do Rio de Janeiro, ampliando o leque de crimes para além das disputas agrárias.
A conclusão da Polícia Federal é contundente: o esquema não foi pontual, mas sim estruturado e recorrente. A Operação Última Rátio, deflagrada inicialmente para apurar corrupção no Judiciário, revelou uma rede que, segundo os investigadores, utilizava a função pública para enriquecimento ilícito e favorecimento de interesses privados.
As apurações também identificaram movimentações financeiras suspeitas, uso de terceiros para ocultação de bens e manipulação de processos judiciais — elementos típicos de organização criminosa.
O caso expõe uma crise institucional profunda. A suspeita de que decisões judiciais tenham sido transformadas em moeda de troca abala diretamente a credibilidade do sistema de Justiça e levanta questionamentos sobre a integridade de julgamentos que deveriam ser imparciais.
Agora, caberá ao Ministério Público Federal decidir se acolhe o pedido da Polícia Federal e apresenta denúncia formal contra os envolvidos. Caso isso ocorra, o processo poderá se tornar um divisor de águas no combate à corrupção dentro do Judiciário brasileiro.
O que está em jogo vai além de nomes e cargos: é a confiança da população em um dos pilares mais sensíveis do Estado — a Justiça.