
A demora do Senado Federal em votar a Medida Provisória do Frete colocou novamente o Brasil diante de um velho fantasma: o risco de uma paralisação nacional dos caminhoneiros. Embora os primeiros atos desta segunda-feira (13) tenham ocorrido de forma pacífica e ainda sem reflexos significativos no abastecimento ou no trânsito, o recado da categoria foi claro: se a MP caducar, o movimento pode ganhar força e atingir todo o país.
O alvo da pressão é o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP). Há quase duas semanas, lideranças dos caminhoneiros afirmam buscar uma solução para que a proposta entre na pauta do plenário, mas dizem não ter recebido resposta. Agora, decidiram levar a insatisfação para os portos, justamente o coração da logística brasileira.
A estratégia não foi escolhida por acaso. O Porto de Santos, maior complexo portuário da América Latina, movimenta milhares de caminhões diariamente. Uma paralisação prolongada nesse corredor logístico tem potencial para afetar exportações, importações, distribuição de combustíveis, alimentos, medicamentos e insumos para a indústria. Ainda que esses impactos não tenham se concretizado nesta segunda-feira, o risco passou a fazer parte da equação.
Até agora, a realidade é diferente do temor. A Polícia Militar informou que as manifestações ocorreram de forma pacífica, a Polícia Rodoviária Federal não registrou bloqueios nas rodovias federais e a Autoridade Portuária de Santos garantiu que as operações seguem normalmente, após um bloqueio parcial de menos de uma hora.
O problema, porém, está menos no presente e mais no relógio. A MP do Frete perde a validade na quinta-feira (16). Se isso acontecer, cairão por terra mudanças consideradas essenciais pelos caminhoneiros para garantir o cumprimento do piso mínimo do frete e ampliar a fiscalização contra empresas que pagam abaixo dos custos da atividade. A categoria também reivindica redução do custo do diesel e isenção de pedágio para caminhões vazios.
O temor do setor produtivo é que o impasse político transforme uma disputa legislativa em uma crise logística. A lembrança da greve de 2018 continua viva. Naquele episódio, o país enfrentou escassez de combustíveis, prateleiras vazias, hospitais afetados, aeroportos sem querosene de aviação e prejuízos bilionários à economia. O cenário atual ainda está distante daquele colapso, mas a simples ameaça já basta para colocar empresas e governos em estado de alerta.
Enquanto líderes do governo e da oposição tentam construir um acordo para salvar a MP antes do prazo final, os caminhoneiros avisam que a mobilização pode crescer caso o Senado continue adiando a votação. O recado é direto: o tempo da negociação está acabando e, se a política não destravar a pauta, o país poderá pagar a conta de mais um impasse em Brasília.