
A negociação para a venda do Consórcio Guaicurus à empresa goiana HP Mobilidade inaugura uma nova fase para o transporte coletivo de Campo Grande, mas está longe de representar uma solução automática para uma das maiores crises da mobilidade urbana da Capital. Tanto a Câmara Municipal quanto a Prefeitura deixaram claro que a mudança de controle da concessionária somente será aceita se vier acompanhada de investimentos concretos, renovação da frota, melhoria dos terminais, implantação de ônibus com ar-condicionado e elevação da qualidade do serviço prestado aos passageiros.
O recado é direto: trocar os empresários sem mudar a realidade enfrentada diariamente pelos usuários não será suficiente para encerrar um ciclo de quase 14 anos marcado por ônibus sucateados, atrasos, falhas operacionais e milhares de reclamações.
A discussão ganhou força após os trabalhos da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Transporte Coletivo, instaurada pela Câmara Municipal no início de 2025. Durante meses, os vereadores analisaram documentos, ouviram dezenas de testemunhas e identificaram uma série de descumprimentos do contrato de concessão, principalmente relacionados à renovação da frota, manutenção dos veículos e qualidade da operação.
Ao final das investigações, o relatório recomendou a substituição imediata de 197 ônibus, a intervenção no Consórcio Guaicurus e apontou a possibilidade de caducidade da concessão. As conclusões da CPI serviram de base para a intervenção decretada pelo Executivo Municipal e aumentaram a pressão sobre os atuais controladores do sistema.
Presidente da CPI e da Comissão Permanente de Transporte e Trânsito, o vereador Dr. Lívio destacou que o foco não está na troca de empresários, mas na transformação efetiva do serviço.
"O que realmente importa ao cidadão campo-grandense não é quem opera o sistema, mas a garantia de um transporte público digno, eficiente, seguro e compatível com a importância da nossa Capital."
A CPI teve ainda a vereadora Ana Portela como relatora e os vereadores Luiza Ribeiro, Junior Coringa e Maicon Nogueira como membros.
O presidente da Câmara Municipal, vereador Epaminondas Neto, o Papy, afirmou que os acontecimentos atuais são consequência direta do trabalho realizado pelo Legislativo.
"A Câmara teve a coragem de enfrentar um problema histórico da cidade, aprofundou a investigação, apresentou soluções e fortaleceu decisões importantes que passaram a ser adotadas pelo Poder Executivo. Nosso compromisso continua sendo fiscalizar para que essa mudança não fique apenas no papel."
Mesmo com a venda encaminhada, os vereadores garantem que continuarão acompanhando cada etapa da intervenção administrativa e cobrando o cumprimento das recomendações aprovadas pela CPI.
A palavra final sobre a transferência da concessão continua sendo da Prefeitura de Campo Grande.
Nesta quinta-feira (23), a prefeita Adriane Lopes (PP) endureceu o discurso e afirmou que a HP Mobilidade somente receberá autorização para assumir o sistema caso apresente um plano robusto de investimentos.
"Para ela entrar em Campo Grande, precisa fazer uma proposta de mudança ou não vai entrar. Se não tiver troca de ônibus, melhoria de serviço prestado e ar-condicionado, não vai entrar."
Segundo o diretor-presidente da Agereg, Paulo da Silva, uma nova reunião entre representantes da empresa goiana e o município deverá ocorrer na próxima semana para apresentação das propostas e do cronograma de investimentos.
Pelas regras da concessão pública, a compra depende da anuência do Executivo Municipal. Antes disso, a HP Mobilidade ainda deverá obter autorização do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), etapa obrigatória para operações empresariais desse porte.
Na sequência, a empresa apresentará um plano de trabalho detalhando os investimentos previstos para Campo Grande. É justamente nessa fase que serão negociadas as exigências feitas pela Prefeitura.
Entre as prioridades estão:
A administração municipal também confirmou que não haverá aumento da tarifa neste momento.
Caso seja aprovada, a operação colocará fim aos quase 14 anos de atuação do Consórcio Guaicurus, formado em 2012 para operar o transporte coletivo da Capital.
Ao longo desse período, o grupo tornou-se alvo constante de críticas por parte dos usuários devido ao envelhecimento da frota, atrasos frequentes, falhas mecânicas e baixa qualidade dos serviços.
A situação se agravou após a divulgação do relatório da CPI, que apontou reiterados descumprimentos do contrato de concessão, especialmente na obrigação de renovar os ônibus e realizar a manutenção adequada da frota.
Enquanto os empresários atribuem os problemas ao suposto desequilíbrio econômico-financeiro do contrato, alegação ainda não reconhecida definitivamente pela Justiça, uma perícia homologada judicialmente indicou que o Consórcio registrou lucro de aproximadamente R$ 68 milhões até 2019 e crescimento patrimonial no período.
Agora, tanto a Câmara quanto a Prefeitura convergem em um mesmo entendimento: a venda somente terá legitimidade se produzir resultados concretos para quem depende diariamente do transporte coletivo. A expectativa é que a possível chegada da HP Mobilidade represente não apenas uma mudança societária, mas o início de uma nova fase para um sistema que, há anos, é alvo de cobranças da população e dos órgãos de fiscalização.