Quinta, 23 de Abril de 2026

Máfia do câncer: quadrilha rouba milhões da saúde e transforma pacientes em vítimas de esquema criminoso em MS

Investigação revela desvio de até 70% dos recursos públicos e entrega de medicamentos irregulares, colocando vidas em risco em Mato Grosso do Sul

23/04/2026 às 13h00
Por: Tatiana Lemes
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Foto: Divulgação
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Um esquema sofisticado e milionário que teria transformado a dor de pacientes com câncer em fonte de lucro ilícito foi alvo da Operação OncoJuris, deflagrada nesta quinta-feira (23) em Mato Grosso do Sul. A ação expôs um suposto conluio entre advogados, ex-servidores públicos e empresários que manipulavam decisões judiciais para desviar recursos da saúde pública.

Entre os conduzidos à delegacia estão os advogados Victor Guilherme Lezo Rodrigues e Altair Penha Malhada — este último ex-servidor da Secretaria Estadual de Saúde (SES). Ao todo, foram cumpridos cinco mandados de prisão temporária e 21 de busca e apreensão em Mato Grosso do Sul, São Paulo e Minas Gerais.

As investigações apontam que o grupo movimentou cerca de R$ 78 milhões em apenas um ano, sendo que aproximadamente 70% desse valor — o equivalente a R$ 54,6 milhões — pode ter sido desviado dos cofres públicos .

O esquema, segundo as autoridades, era estruturado e dividido em núcleos. Um deles era responsável por manipular orçamentos e dar aparência de legalidade às ações judiciais. Outro cuidava da parte jurídica, inserindo empresas nos processos para garantir que fossem escolhidas como fornecedoras. Já o núcleo empresarial funcionava como intermediário para emissão de notas fiscais, mesmo sem estrutura para operar.

Na ponta final, um quarto núcleo realizava a importação de medicamentos no exterior por valores muito inferiores aos cobrados do Estado, com indícios de irregularidades sanitárias.

A engrenagem começava com pacientes oncológicos em situação de vulnerabilidade, que recorriam à Justiça para obter medicamentos de alto custo. A partir daí, o grupo inflava orçamentos para garantir decisões judiciais com valores acima do mercado. Após o bloqueio de recursos públicos, a maior parte do dinheiro era desviada sob a justificativa de “taxas de assessoria”, restando apenas uma fração para a compra efetiva dos remédios .

Além do prejuízo milionário, o caso ganha contornos ainda mais graves: há indícios de que medicamentos sem registro na Anvisa foram fornecidos aos pacientes, sem rastreabilidade, controle adequado ou garantia de procedência. A prática, segundo investigadores, colocava diretamente em risco a vida de pessoas já fragilizadas pela doença .

O esquema veio à tona após a Defensoria Pública identificar irregularidades no fornecimento de medicamentos a pacientes assistidos pelo órgão. A partir daí, uma força-tarefa envolvendo Polícia Civil, Receita Federal, Ministério Público e outros órgãos foi mobilizada.

Durante a operação, cerca de 99 agentes participaram das diligências. Em Mato Grosso do Sul, as ações ocorreram principalmente em Campo Grande e Ribas do Rio Pardo.

O caso segue sob investigação, e as autoridades ainda apuram a extensão total dos prejuízos e o possível envolvimento de outros integrantes. Enquanto isso, o escândalo levanta um alerta grave: quando o sistema é corrompido, quem paga o preço mais alto são justamente os pacientes que dependem da saúde pública para sobreviver.

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